terça-feira, 2 de outubro de 2007

As dores de Alice

Nada mudou realmente. Ando desconfiando que o preço que meus sonhos cobram são pagos em horas tediosas. Salas de aula, palavras esterilmente proferidas, pessoas-espelhos. E tudo o que eu posso fazer continua sendo olhar as nuvens passando na janela ou palavras passando no papel. Quando não posso, conto-me histórias para passar o tempo.

(Luiz me disse que os sonhos estão realmente caros).

A dor de cabeça lhe enfraquecia. Lembrava-se das últimas dores; a que veio antes da menstruação, a que veio com o frio, o calor, o clima seco, o cansaço, a desilusão. Não se importava com a dor, simplesmente atribuía-lhes razão de ser. Alice fumou um cigarro, deitou na beirada da cama com a cabeça pendendo. Viu a sujeira debaixo do armário. Pensou em aranhas e em seu medo delas. Pareceu-lhe que o medo era uma outra espécie de dor de cabeça.
Descartou mais um pensamento insípido enquanto de cabeça para baixo sentia seu crânio latejando e seus olhos relutantemente abertos ajudavam os dedos a escolher qualquer canção no seu mp4. Imaginou cenas no mesmo tom das músicas e acabou escolhendo qualquer disco que lhe remetesse a outros tempos. Foi levada para noites passadas que não viveu com velas, almofadas, chão de madeira, nenhuma mobília, verão, tristeza, um violão melancólico e a calma de tempos sem computador.
Ouvindo The Reminder a voz da cantora que soava límpida e chatinha a faz sentir-se bem, quase aconchegada no lugar imaginário que acabara de criar. Sorri, aumenta o volume, levanta-se rapidamente e antes que a cabeça pare de rodar e seus joelhos recuperem a força, dança imperceptivelmente até a cozinha e toma um comprimido.

domingo, 30 de setembro de 2007

Aparece Claire

Claire se descobre sozinha na tarde de domingo. Depois de conversar sobre amores desfeitos, amores em tempo, percebe-se no meio de conversas de futuros amantes e entre amantes imaginários. Suspira e exala fumaça, com cheiro de flor de cerejeira. Hoje ela não faz sentido. O sentido nela se faz. Incorpora ciúmes alheios e confunde-os com seus próprios. Hoje está para as dores de amor de qualquer um, inclusive as suas.
Da varanda, reflete entre as mentes sua e dele enquanto aguarda a demorada e breve correspondência; ela tão bem conhece os pensamentos que habitam na mente do seu artista. Poeta. Tão subjetivo, tão comunicativo através dos espaços, risadas e migalhas. E responde-lhe sem que ele tenha se manifestado abertamente:

“Não quero perdê-lo, mas se o for, quero que me perca antes, mesmo que nunca nos tenhamos tido. Bloqueio-o de mim por paredes de várias espécies de matéria e pensamento, desfaço-me de seus apegos, de sua arte e de seus versos e de meus sonhos de nós, mas não o perderei sem sequer poder tê-lo tido. Jamais.
O desvão que se abre em mim neste momento é obscuro e possui um trampolim. Ao final irei conquistá-lo; homem, artista da minha própria arte. Ao final irei esquecê-lo, serei mulher, serei minha artista. Serei só minha?
Entre sentimentos torvelinhos reato-me ao texto que corre entre nós dois e preparo-me para o inevitável, para o não poder ser de. Há, aí, em sua companhia, outros artistas, tão diferentes do que sou, tão próximos. Pior; há aí mesmo outra artista. E com o que nem eu ouso chamar de arte, em vão me expresso, me desabafo entre pixels e o nada, choro e salvo minhas lágrimas pitorescas em bitmap, para não perder o pesar.”

sábado, 29 de setembro de 2007

Na prateleira mais baixa do armário do meio descubro versos. Meus. Ou mais ou menos meus. Digamos que já tenham sido meus ou passado por mim. Não sei a quem pertencem agora. Se a eu que já fui, a eu que ainda sou ou a eu que totalmente diferente sou.
Tinha então 16 anos. Descobri que gostava do meu jeito de ser então. E que já vivi a maior parte do que eu queria ter vivido quando daqueles dias. Não me preocupo se isso é compreensível a outros olhos. Ou se eu dissesse olhando para meus olhos de então que tudo ia acontecer, que aqueles amores estavam por vir, que aquele vento correria fresco nos meus cabelos de hoje e que as sementes de árvores que eu nem sabia quais era brotariam em mim e revelariam sua essência. Sim, eu reli minhas sementes hoje, encontrei suas cascas no fundo do armário do meio.
Descobri coisas a meu respeito que já havia esquecido, ou desonestamente tentado deixar de lado. Um quê de solitária, de viajante e exploradora que não sei se tenho mais. Daqueles dias, ainda não conquistei a sonhada liberdade de ir onde e quando. As amarras que me atam, no entanto, estão enlaçadas com outros apegos, desta vez meus próprios apegos. Vejo neste instante que tenho minhas próprias amarras, que elas me doem, mas me mantêm. Onde? Hoje não vou porque não quero; acho que não quero ir. Antes não podia, agora não sei se quero ir neste instante. Acho só que preciso de mais bagagem, talvez proteção. Talvez menos bagagem. É. Não vou agora porque preciso de menos bagagem.

Então revejo versos e desejos antigos. E surge uma antiga necessidade de escrever como se eu tivesse 16 anos e fome de botar pra fora.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

pequenas fugas

Saí de casa devagar, como se devagar pudesse fazer as ruas e casas criarem caminhos que eu não conhecesse nas redondezas. A névoa que não deixava ver o final das ruas me fez pensar que se talvez entrasse numa delas até me perder no meio da bruma eu seria levada à Avalon.
Sigo caminhando, não aparecem caronas; sem problemas, quero mesmo andar até cansar, até me perder. Mas não passo do centro da cidade. Procuro então me perder entre livros, em outras vidas, verdadeiras ou não. Nada de poesia hoje, nada de História, Filosofia ou Dalai-Lama. Quero ser absorvida, sugada para outro universo, qualquer coisa distante e diferente de mim. Para não voltar até que o tempo passe ou que o subconsciente resolva o que em mim complica a vida.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Porque é primavera e eu nada postei a respeito.
Porque eu adoro rosas.
Porque minha mini-roseira está crescendo.

Meditação à beira de um poema
Adélia Prado «


Podei a roseira no momento certo

e viajei muitos dias,

aprendendo de vez

que se deve esperar biblicamente

pela hora das coisas.

Quando abri a janela, vi-a,

como nunca a vira

constelada,

os botões,

Alguns já com rosa- pálido

espiando entre as sépalas,

jóias vivas em pencas.

Minha dor nas costas,

meu desaponto com os limites do tempo,

o grande esforço para que me entendam

pulverizam-se

diante do recorrente milagre.

maravilhosas faziam-se

as cíclicas perecíveis rosas.

Ninguém me demoverá

do que de repente soube

à margem dos edifícios da razão:

a misericórdia está intacta,

vagalhões de cobiça,

punhos fechados,

altissonantes iras,

nada impede ouro de corolas

e acreditai: perfumes.

Só porque é setembro.

terça-feira, 21 de março de 2006

uma das preferidas

Tanta coisa que eu queria escrever hoje...da lua igual ao sorriso do gato que a Alice encontra, me dizendo "depende de onde você quer chegar", da mulher com 7 filhos, do banheiro quebrado, da clarice, do samba...

mas um telefonema, uma mensagem conseguem mudar todo o sentimento/pensamento construído timidamente durante o dia.

então deixo aqui uma do pleminski que não tem erro

PROFISSÃO DE FEBRE


quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento

quarta-feira, 1 de março de 2006

Um exercício

Vi um documentário no eurochannel sobre a KT Tunstall. O que me chamou atenção foram os olhos meio puxados, a pele branquinha e um sotaque inglês bem do interior. No doc ela fez questão de enfatizar que já tinha mais de 30 anos e que era possível ser bem sucedida no show bizz mesmo "velha". Disse ter conquistado uma certa maturidade e calma pra gravar um trabalho que realmente tivesse a cara dela. Realmente, tem uma certa serenidade na sua voz, é gostosa de ouvir, nenhuma agressividade; aparentemente nenhuma pose.
Eye to the telescope, o disco novo, é bem feitinho. A primeira faixa, Other side of the world andou até tocando por aqui, talvez numa novela. Comercial demais pro meu gosto e também achei que foi a melhor produzida. Música de trabalho mesmo. Mas como ela tinha dito no doc que tinha gravado antes um disco que era mais rústico (que eu não achei), resolvi ouvir o resto do cd. Recomendo Under the weather, Suddenly I see, Miniature Disasters, Silent sea, Heal Over(a baladinha mais baladinha) e Big Black Horse and the Cherry Tree, que parece ser a mais famosa na Europa. Nesse música ela diz no, no, you're not the one for me, dispensando um cara como quem sabe o que quer (rs).
Espero que o disco anterior, que talvez seja independente, seja mais gostoso de ouvir, porque ela tem umas letras legais.

Deve ser legal ganhar dinheiro escrevendo o que o meu ouvido pensa, mesmo que seja uma grande besteira de total irrelevância como essa...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

As serpentinas

Hoje faz 1 ano que o meu avô morreu. Acordei apreensiva, afinal, não sabia como ia ser o clima do dia, como estaria minha mãe, meu tio, se iríamos fazer algo em memória – o que eu acho merecido. Mas apesar do pai ter dito que fazia questão de ir à missa no fim do dia, fomos todos ao clube, nós 7. Sol, piscina, calorzinho, grama, todo mundo junto. Almoço no restaurante. Depois do almoço fiquei pensando em ir à missa com meu pai, afinal, meu avô era católico. Mas depois lembrei que ele mesmo não fazia questão de ir à missa, aliás, raras foram as vezes que vi meu avô numa Igreja. Deus pra ele estava nas ações, no cotidiano, no "dar a mão". E fiquei naquela dúvida de ir ou não ir. Queria fazer algo pela sua memória.
Mas o final da tarde chega e curtindo o ventinho, olhando as montanhas e vendo a família toda junta, percebo que não podíamos todos juntos ter feito homenagem melhor. A família era o seu bem mais precioso. Gostava de ver todo mundo junto no domingo, ficava preocupado quando chovia e alguém ainda não estava em casa. Queria saber que dias eu teria "eventos" e que horas voltaria..."Ah, Itaipava é muito longe, você vai fazer seus pais ficarem acordados até você voltar?"
Enfim, sem que eu me desse conta, acho que passamos um dia juntos e sossegados como ele gostaria de ter passado. Nada mais em paz, nada mais comum, nada mais simples.

Na volta paramos numa confeitaria e justo a dona da confeitaria era amiga do meu avô. Reconheceu a vó, achou meu tio parecido com ele. Todo mundo gostava dele, todos sentem muito e dizem que sentem falta. Aí fiquei sabendo que o meu avô tinha ajudado muito um parente, acho que o marido, daquela dona. E é sempre assim...cidade pequena...a gente vai aos lugares, aí ouve uma história de alguém que ele ajudou ou de alguma grande brincadeira que ele tenha feito na época da Bohemia. E assim a vida dele continua pra mim, presente nos frutos das ações. Grande lição.



tava rolando um bailinho no fim do dia no tal clube...fiquei jogando serpentinas, depois reparando nelas; ô coisa social, essa serpentina. Você joga, não desenrola tudo, outra pessoa pega, joga o resto...uma criança passa puxa o fio e ninguém é dono da tirinha de papel.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Na casa feita de alvorecer.
Na história feita de alvorecer.
Na trilha do alvorecer.
Ó Deus Falador!
Seus pés, meus pés, revigora.
Seus membros, meus membros, revigora.
Seu corpo, meu corpo, revigora.
Sua mente, minha mente, revigora.
Sua voz, minha voz, revigora.
Suas plumas, minhas plumas, revigora.
Com a beleza diante dele, com a beleza diante de mim.
Com a beleza atrás dele, com a beleza atrás de mim.
Com a beleza acima dele, com a beleza acima de mim.
Com a beleza debaixo dele, com a beleza debaixo de mim.
Com o pólen bonito em sua voz, com o pólen bonito em minha voz.
Está repleto de beleza.
Estou repleta de beleza.
Na casa da luz noturna.
Da história feita de luz da noite.
Na trilha da luz da noite.


- oraçao navajo


Da juventude à morte, o que traz a cura é o divino; natural, belo. Não há que pensar a respeito, há que viver a respeito e em respeito. Sentir, ser. Amar é a única ação possível diante da inquietação, da alternativa à uma vida contemplativa. O que ainda me traz dúvidas é se amar como uma criança, que ama, mas não sabe que ama, contribui pro mundo. Talvez a vantagem de crescer seja amar apesar da consciência.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

"I have to rock and read and roll", vai dizendo o Bob Dylan e eu vou concordando em meio a tantas coisas pra fazer e outras pra decidir, pensar a respeito...mas o disco do Bob dá um clima d viagem de carro, de estrada longa e percebo que é isso mesmo, o carro é meu corpo.

Ai, essa coisa de escrever online acaba mudando as idéias da cabeça muito rápido. Ia escrever sobre a menininha que mora com a avó que eu andei cuidando do caso nas últimas semanas, sobre o dia que eu cortei o cabelo e o outro dia que começou com um convite de uma amiga pra ir pra Machu Pichu e terminou comigo fazendo o mesmo convite.

Mas conversa vai, conversa vem, pelo msn e eu quis ler o blog de uma prima minha, que nem sabe que eu o leio e de lá fui parar numa página que também é uma das favoritas dela e dei de cara com esse texto que eu achei lindo.

Não dá pra comentar sem estragar o final. Só que eu também não lembro da primeira vez que vi o mar.

Mas isso já me lembrou agora de Bocochê, todo aquele amor e o fundo do mar. E Narizinho e o Prícipe do Reino das Águas Claras. Aff, chega.

As idéias já mudam outra vez e agora vou correndo ao teatro ver se ainda acho ingresso pra peça nova do Michel Melahmed, Dinheiro Grátis. Coisas (dessa vez boas) pra fazer...