quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A

seta
ponta do lápis
escada vista de lado
ângulo

aponta para cima
a ponte para cima

comece a escrever
suba os degraus
gaste a ponta
aponte-a

início
amor Amor
o feixe da luz do farol
da cidade que não existe mais
A é a sua própria cidade
A é meu lugar também

não vá dizer A outra alguma
não vá amar senão A mim


sexta-feira, 9 de julho de 2010

Se eu não estivesse te esperando, não haveria tirado as roupas do varal. Não as teria dobrado e deixado em cima da minha cama assim mesmo, amarrotadas. Se eu não te esperasse ainda há pouco, teria ido tomar banho e teria reclamado de esquecer pelo segundo dia de comprar condicionador.

Não te esperando, igualmente não teria guardado as roupas – assim, sem passar – no armário e, principalmente, não teria retirado aquelas coisinhas brancas que ficaram no vestido preto que lavei na máquina mesmo. Se não te esperasse pra qualquer momento, duvido que teria separado as roupas e papéis que precisarei amanhã de manhã, nem teria feito lista do que preciso comprar – condicionador, inclusive.

Se você não tivesse avisado que iria ligar, já teria me perdido em conversas por msn, comido alguns daqueles bombons que ganhei de presente e teria ido fazer chá.

Enquanto te espero, escrevo. Se não estivesse ainda te esperando, certamente não teria terminado de escrever nem consideraria arrumar os papéis do passado que ainda se fazem presentes na minha escrivaninha.

Se não estivesse te esperando, ainda te esperaria.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Apaixonar-se em quatro passos

O olhar, o beijo, o amor, o sexo.
O beijo, o amor, o sexo, o olhar.
O amor, o sexo, o olhar, o beijo.
O sexo, o olhar, o beijo, o amor.

Se houver um abraço, deu certo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Como (não) se livrar de um amor

Fuja para São Paulo

apaixone-se pela cidade

Vá, levada por um desconhecido,

para um bar onde toca jazz.

Aprenda com um escocês,

- de mentira ou de verdade -,

a fazer um drink novo.

Leia quadros, fotografe poesias,

aprenda outro caminho.

Perca a respiração

em um acesso de tosse.

Decepcione-se.

Maravilhe-se.



Volte para casa;



e descubra que ele a ama desvairado.

Não você (ainda), a cidade.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

"O Diabo são meus óculos de leitura."

Beatriz Bracher

domingo, 31 de maio de 2009

Hoje me dei conta de que já saí de casa: meus livros que ficaram lá, na casa dos meus pais, a pretexto de faxina foram rearrumados - o mais triste - por ordem de tamanho.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Epistolar II

20 de junho de 1963

Antonio,

Recebi sua carta há 3 dias. Fiquei nesse tempo juntando as poucas palavras que conheço pra escrever-lhe. Na verdade esta é uma daquelas situações nas quais não sei como proceder. Meço palavras. Fico tão comovida ainda que assustada com sua carta. Quanta beleza na sua poesia, quanta entrega. Sua sinceridade merece a minha entre estas linhas. Já fazem alguns meses que fui embora do Brasil, não tive oportunidade de despedir-me de qualquer pessoa. Aquele por quem mais meu coração doeu de não haver despedida foi você. Tinha trazido na bagagem os nossos poucos beijos que guardei na memória. Não vou disfarçar a alegria, o frisson e o coração adolescentemente disparando quando reconheci sua caligrafia. Revivi aquelas breves noites em que nos encontramos.

Me ocorre que uma vez li que pessoas que escrevem as palavras suspensas em relação às linhas do papel são pessoas sonhadoras, sem os pés no chão. Vejo que estou escrevendo assim agora, quando comecei a rascunhar esta carta. Sempre faço rascunhos antes de uma carta, assim como penso tanto antes do que há para dizer; não sou tão sonhadora assim, ou seja, talvez eu só esteja num estado flutuante.
Ia te escrever qualquer coisa, tentar desprender o improviso da minha ordem, tornar a big band um bebop. É que me lembro que tenho o mar inteiro pra te contar. Ou todo um continente. Importa é que eu queria te falar infinitamente, já que o que eu tenho pra escrever não cabe em poucas palavras. Acontece que também não cabe em muitas. Aliás, o que eu tenho pra te dizer não cabe. Não é hora, momento nem maneira de dizer assim, por carta. Se eu te olhasse nos olhos agora, também não saberia dizer, certeza. “Dizer o quê?” aposto que você está se perguntando em ânsia com seus olhos carinhosos que não esqueci e que até já desenhei só pra ver se eu lembrava dos detalhes. Em alguma outra carta te mando o desenho, como retribuição por você ter olhado tão lindamente pra mim com a sua leve ternura com ar de bossanova. Mas então, não cabe dizer. E se um dia couber, se ainda houver isso em mim que eu queria dizer e se também houver alguma forma de ser dito, eu digo. E estamos combinados.
Tinha começado esse parágrafo anterior pensando naquela vez em que você me ligou – a única – e parecia que você ia me contar outras coisas, mas você só perguntou como foi meu dia, eu comecei respondendo que estava com dor de garganta – porque era a coisa menos importante e eu tenho esse padrão mental de rememorar as coisas e ordená-las de forma crescente – só que você foi atencioso em relação a isso e por algum motivo onde você estava não era ideal pra conversar (acho que você só queria ouvir minha voz) e eu acabei não contando mais nada, nem ouvindo de você. Muito assunto se perdeu ali, inclusive de mais importante. Ia te contar que naquele dia eu tinha arrumado uma gaveta com meus papéis, umas poesias velhas, uns contos em parágrafos desordenados, pra ver se arrumando meu interior externado arrumava também minha mente. E que nesse dia tinham surgido planos de viajar sozinha, de largar as exatas e viver de literatura (loucura passageira) e que no meio desses planos percebi que o único pensamento em paz na minha mente era você. Mas logo desligamos o telefone, eu terminei de colocar os papéis na gaveta um tantinho mais feliz de você ter ligado.
Só você pra me fazer perder a objetividade, Antônio, olha quanto eu já escrevi. Vim até esta linha só pra dizer que adorei sua carta de presente de aniversário, mesmo que chegando atrasada. Tanto calor, cuidado, entrega, e sinceridade nas tuas palavras, frases, pontos e vírgulas, todos cálidos. Também senti dó quando você chegou no final, também me senti como se te visse sem saber quando te reencontraria.

De fato, não sei se vamos nos reencontrar. Não sei se volto mais, Antônio. E se voltar, e quando voltar, não sei se esse sentimento que fez essa tua carta chegar até aqui ainda existirá. Você é tão sonhador, livre, aberto, inteligente, estou certa de que muitas outras te farão companhia e motivos para sambas e desgostos e bebedeiras e prazeres. Me forço a reconhecer – ou lhe impor – esta sua natureza de muitos amores (mesmo que eu não saiba de nenhum, nunca conversamos sobre isso), pra eu sofrer menos com essa história que estava começando. Desculpe a mudança brusca de tom, a delicadeza por vezes dá lugar à proteção. Ainda bem que você não pode me ver agora.

Vai lá, vive tuas poesias, seus sonhos, seus caminhos em arte. Vive umas canções por mim, bem sei como se sofre pra fazer uma das boas. Visita lá o Império, que eu gostava tanto de ir, já que você ainda se lembrou até da minha escola de samba.

Saudades, Antônio, de você, daqueles dias e de tudo ao redor. Guardo pra sempre em minha pele essas memórias, que devem ser tudo que terei de ti. Olha, não te cobro resposta a esta carta, mas se você resolver responder, antes vá à praia, toma uma cerveja gelada por mim e me conta como foi.
Guardo-te com profundidade e delicadeza junto com o gosto de um amor que já transbordava os dedos pensando em começar.

Bons caminhos.

Um terno abraço,
Jude

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Dizem que ela é um caso perdido
Dizem que ela tem amores demais
Mas quando passa e sorri parece tão sozinha
Que eu chego até a pensar
Que ela possa querer meu carinho

do Paulinho da Viola

terça-feira, 3 de junho de 2008

Homage to a favorite movie

In this soft madness while morning rises, unrevealed dreams remain surrounding my recently awaken mind. I feel like other countries and I feel the warmth of beloved hands I held for an undefined while. I’ve been to Istanbul with my eyes, to Paris with my skin; I’ve been to Lhasa with my thought and with my sins to New Orleans. Now I’ve gotten up from my magic-carpet-first-class-airplane-pillow and I brush my hair looking at the mirror while posting mental smooth inaccurate pictures on the spice draw in my kitchen.
The moustache full of good advices of my grandfather spreads memories and tears and smiles and deep doubts about life and friends. I watch people write delicately a sweet note for me. A travel invitation, a little gossip, a little flower. Funny pearls or salty candies. Fragments of a calm old-known solitude.
I brush my hair and I look at me doing it in the mirror and I feel like foreign poetry and family womb. My inner keeps me safe and still while I’m out for a good day.

Jasmin dans la tisane et gateaux au carrot.
Philosofie et la petite chat Sophie.
Une télé caché
et toute la felicité que la vie rendre dans un jour de congé.

sábado, 10 de maio de 2008



Do Laerte

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Diálogos

Pai e filha na fila das Sendas, ao lado da sala de culinária:

- Papai, pra que serve aquela sala?
- Ah, ali acontecem aulas de culinária.
(o pai reflete acerda da abstração da palavra)
- Você sabe o que é culinária?
(expressão entre vaga e tímida)
- Não...
- É a arte de cozinhar!
(aí eu realmente pensei que o pai fosse se complicar com o desenrolar da conversa)
- O que é arte?

Seria uma continuação incrível pra um diálogo de fila de supermercado, mas ao contrário eu ouço a pequenina dizer:
- Ah, é fazer feijão, sorvete...


Duas universitárias no sofá, assistindo novela:

- O Ferraço e a Maria Paula vão casar!
- Ah, também acho! Até porque ele agora está mudando e vai se apaixonar de verdade pela Maria Paula.
- Tá doida? E você por acaso acredita em homem?
- Claro que não, mas eu acredito em novela.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

As dores de Alice II

Alice deitada em sua cama tentava acordar. Já passava das oito e havia toda a rotina para recriar. Difícil levantar-se, mesmo com a persiana quebrada pela sua falta de delicadeza, pois agora a luz dominava o quarto todas as manhãs com seu calor. Mas hoje a claridade era demais até para acordar. Tanta luz assim doía os olhos e escurecia os pensamentos. Tenta se cobrir. Mas o frescor da manhã se foi, seu corpo começa a se molhar. Alice não é mais criança pra se esconder do dia por vir debaixo das cobertas. Aliás, essa reflexão a lembra de um louco professor explicando o porvir. O porvir não, o devir! O porvir não passa do futuro, o devir o excede. O professor da época da faculdade lhe diz em sua memória com os olhos arregalados e a mão negra apontando um dedo pro nada “O rio de ontem não é o mesmo do hoje!”. Decide que é assunto deveras incômodo e indigesto para toda aquela opressora luz do dia inteiro começando. Ou recomeçando, se usar o rio de Heráclito como metáfora.
O que fazer agora, o que fazer? Estala as costas se espreguiçando e quando termina deixa um pouco de luz entrar pelos ouvidos e se ouve dizendo para a janela: atraso, banho e chá de jasmim.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Rio de Janeiro, 1º de abril de 1963.

Amada,

Escrevo estas timidamente porque hoje meu silêncio habitual não contém meu sentir. Quero te desejar feliz aniversário. Você não tem idéia – você realmente não sabe – o quanto a sua presença no mundo me faz bem e o quanto eu sou grato ao que quer que seja responsável pela nossa existência, de poder ter vindo ao mundo na mesma época em que você passa por aqui nestas formas tão belas, com esta alma tão belamente lapidada que escapa pelos seus olhos. Claro que você nem imagina, afinal, já faz mais de mês que não nos falamos, e foram só três as vezes que nos vimos, apesar de que você me beijou em todos esses encontros e senti como se fosse experimentar estes beijos pela primeira vez ainda muitas vezes. Sim, por certo, sou patético. Pode apostar que tento viver aqueles versos dos seus sambas preferidos tentando não lembrar do quanto sofreram todos aqueles que os escreveram.
Mas é seu aniversário, e eu só quero comemorar, querida. Dar um abraço, afagar seus cabelos curtinhos. Como não faço idéia de onde te encontrar, escrevo esta carta pra enviar quando souber seu endereço. Ando trabalhando e estudando demais, espero poder me dedicar a descobrir seu paradeiro em breve.
Na verdade, já faz dias que penso neste seu aniversário. Acredite, dias. Mesmo que faça semanas que você já tenha se esquecido da minha existência. Estava cumprindo com afinco a tarefa de não me dirigir a você. Até que hoje no táxi passei pelo porto e o motorista comentou “esses navios são lindos”. Não sei o que isso ter a ver contigo, mas foi o que me despertou o desejo de lhe escrever. Ainda assim, era só um desejo, você sabe como sou meio austero com meus desejos. Mas a viagem era longa, eu estava indo pra Ilha do Governador e novamente seu taxista – claro que era seu, só me fez lembrar de você – disse que morava perto da sua escola de samba preferida. Jude, sua escola de samba! Talvez fosse um sinal. Então fiz a minha brincadeira particular com o destino e disse pra essa entidade que encaminha sinais e lê mentes que precisava de mais um sinal pra te procurar, já que estava tão determinado a te esquecer. E não é que no fim do dia vejo um livro com teu nome? Era o nome da autora. Não lembro o sobrenome, não lembro o título; era fino e verde-musgo. Quem, dentre tantos livros, presta atenção em um pequeno exemplar verde-musgo? Quem, dentre tantos nomes, tem o nome igual ao teu? Então escrevo. Escrevo e te imagino e te desejo. Festejo em mim o dia no qual você, linda, linda, apareceu no mundo.

Um dia espero comemorar tua vida contigo. Mesmo que não seja teu aniversário. Todo dia vai ser como se fosse quando nos reencontrarmos. Claro que vamos nos reencontrar, não se pergunte. Sei bem que teus raciocínios não te deixam ouvir a voz do coração, este que sempre soube o futuro de todos os amores que começam.
Querida, não consigo mais dizer nada. Recolho-me ao mesmo silêncio de quando leio seus versos. De quando ouvi os versos que você fez pra mim, lembra? Ai, como ainda estou apaixonado e nem sei pra onde endereçar esta carta!

Perdoa se me demoro em terminar estas linhas, mesmo já tendo anunciado seu fim. É como me despedir de ti sem saber quando nos retornamos a ver. Olho para este fino papel como olhei seus olhos todas as vezes que nos despedimos, ingenuamente perguntando se te contemplaria novamente, se nos beijaríamos novamente. Ah, como sou tolo, Jude, me perdoa. É que te amo tanto. Nem me preocupo em explicar, você sabe.

Feliz Aniversário. Receba esta carta e o meu amor, que você já tinha, como presente.
Hoje brindarei à sua vida sozinho.


Um beijo,
Antônio.

domingo, 2 de março de 2008

As luzes da tarde em minha casa são lindas. Foi tudo construído para o início da manhã e o fim da tarde. Me calo observando uma rotina da qual já não faço parte. Minha mãe brincando com sua sobrinha de quatro anos da mesma forma como fazia comigo nas tardes de férias que ela sempre dava um jeito de tirar junto comigo. Papai lendo na varanda ou consertando algo. E essa luz meio dourada com aura de memória, me convidando a aproveitar o restinho da tarde na rede, a ouvir meu cachorro latir e antes disso fazer um suco pra todo mundo.

Ai, benção e tortura de retornar. Pois retorno e cada vez mais quero ficar neste silêncio colorido, enquanto a vida leva pra não sei aonde barulhento e cansativo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Começa doendo.
Lembra um amor perdido de repente.
Então queima.
Lembra paixão e se parece com antes de entrar no palco,
Mas eis que os joelhos não tremem.
Surge um leve enjôo,
Como se já estivessem sorvidos
os copos que precedem o porre.

Todas os fatos e dias engolidos
Se acomodam e pesam
No final de minhas costelas.
Emoções que me recuso a digerir
Irrequietas no meu esôfago.

Me deito e procuro abraçar
Com o corpo exausto e preocupado
Este sofrido estômago,
Arauto de meu subconsciente.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Se apaixonar não estava nos planos. Era algo pra depois de realizar sonhos mais concretos e sérios – ela não sabia que um amor era algo da maior seriedade e leveza. Teve que aprender entre muito trabalho, aflições, estudos, sorrisos de alívio e passeios de mãos dadas. Começaram então a aparecer flores entre as páginas de seus livros de Direito.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O terceiro

Ela ouvia Vinicius de Moraes e amava. Mas sem tanta dor como nas canções.
Enquanto isso lembrava do terceiro encontro com o seu poeta.

Finalmente eles ficaram a sós na sala. No continuaram sentados no sofá conversando baixinho. A luz de dois abajures deixava a sala em tons de terra e amarelos envelhecidos, sem aquele manjadíssimo azulado da tela do computador que os unia e separava friamente. Ela estava mais calma do que imaginara estar. Serena. Sem pressa. Num momento de silêncio ela o olha com ternura e pega sua mão. Ele calmamente olha. Não se assusta. Mas Claire sabe que ele ainda não a quer. Seu amor é tão grande que precisa tocá-lo. Não ardentemente, mas ternamente, como quem contempla, como quem cuida de orquídeas.
Leva a mão dele até sua face. Acaricia-a. Segura aquela mão entre as suas pousando-a em seu colo e desce os olhos até ela, olha as unhas mais belas e masculinas que já viu. Os dedos e as poucas veias que a juventude permite aparecer. Admira aquele pedaço que contém tanto do seu amor. Beija aquela mão esquerda e não olha para o seu rosto. Não agora. Fecha os olhos e respira com calma, o momento é pleno dentro do ser de Claire. Ainda segurando a mão dele, a mão direita de Claire alcança aquele rosto suave, suavemente, deleitosamente. O olhar do poeta derramava melancolia, poesia dentro dela. Toca-lhe a maçã do rosto com as costas da mão, deslizando, sentindo a barba por fazer. Vira a mão devagar e passa os dedos delicadamente sobre o canto da sobrancelha, depois o polegar. Desce os dedos passando pelos curtos e largos caracóis castanhos atrás da orelha e por entre os dedos lembra do cheiro em seu pescoço, em sua pele, que havia sentido nos breves abraços. Retorna com o polegar aos lábios. Imagina-os encostando-se em seus próprios lábios tão sensíveis. Qual seria o gosto, a temperatura de seu hálito? Ele se deixa admirar. Não a olha com assombro, nem demonstra qualquer emoção. Uma deidade. Nem ela o quer agora. Quer exatamente o que tem, satisfaz-se com a presença física, com a inexistência das palavras escritas sem ensaio. Sem a tela do computador. O toque. As suas mãos nele. Suas mãos. Nele.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

As dores de Alice

Nada mudou realmente. Ando desconfiando que o preço que meus sonhos cobram são pagos em horas tediosas. Salas de aula, palavras esterilmente proferidas, pessoas-espelhos. E tudo o que eu posso fazer continua sendo olhar as nuvens passando na janela ou palavras passando no papel. Quando não posso, conto-me histórias para passar o tempo.

(Luiz me disse que os sonhos estão realmente caros).

A dor de cabeça lhe enfraquecia. Lembrava-se das últimas dores; a que veio antes da menstruação, a que veio com o frio, o calor, o clima seco, o cansaço, a desilusão. Não se importava com a dor, simplesmente atribuía-lhes razão de ser. Alice fumou um cigarro, deitou na beirada da cama com a cabeça pendendo. Viu a sujeira debaixo do armário. Pensou em aranhas e em seu medo delas. Pareceu-lhe que o medo era uma outra espécie de dor de cabeça.
Descartou mais um pensamento insípido enquanto de cabeça para baixo sentia seu crânio latejando e seus olhos relutantemente abertos ajudavam os dedos a escolher qualquer canção no seu mp4. Imaginou cenas no mesmo tom das músicas e acabou escolhendo qualquer disco que lhe remetesse a outros tempos. Foi levada para noites passadas que não viveu com velas, almofadas, chão de madeira, nenhuma mobília, verão, tristeza, um violão melancólico e a calma de tempos sem computador.
Ouvindo The Reminder a voz da cantora que soava límpida e chatinha a faz sentir-se bem, quase aconchegada no lugar imaginário que acabara de criar. Sorri, aumenta o volume, levanta-se rapidamente e antes que a cabeça pare de rodar e seus joelhos recuperem a força, dança imperceptivelmente até a cozinha e toma um comprimido.

domingo, 30 de setembro de 2007

Aparece Claire

Claire se descobre sozinha na tarde de domingo. Depois de conversar sobre amores desfeitos, amores em tempo, percebe-se no meio de conversas de futuros amantes e entre amantes imaginários. Suspira e exala fumaça, com cheiro de flor de cerejeira. Hoje ela não faz sentido. O sentido nela se faz. Incorpora ciúmes alheios e confunde-os com seus próprios. Hoje está para as dores de amor de qualquer um, inclusive as suas.
Da varanda, reflete entre as mentes sua e dele enquanto aguarda a demorada e breve correspondência; ela tão bem conhece os pensamentos que habitam na mente do seu artista. Poeta. Tão subjetivo, tão comunicativo através dos espaços, risadas e migalhas. E responde-lhe sem que ele tenha se manifestado abertamente:

“Não quero perdê-lo, mas se o for, quero que me perca antes, mesmo que nunca nos tenhamos tido. Bloqueio-o de mim por paredes de várias espécies de matéria e pensamento, desfaço-me de seus apegos, de sua arte e de seus versos e de meus sonhos de nós, mas não o perderei sem sequer poder tê-lo tido. Jamais.
O desvão que se abre em mim neste momento é obscuro e possui um trampolim. Ao final irei conquistá-lo; homem, artista da minha própria arte. Ao final irei esquecê-lo, serei mulher, serei minha artista. Serei só minha?
Entre sentimentos torvelinhos reato-me ao texto que corre entre nós dois e preparo-me para o inevitável, para o não poder ser de. Há, aí, em sua companhia, outros artistas, tão diferentes do que sou, tão próximos. Pior; há aí mesmo outra artista. E com o que nem eu ouso chamar de arte, em vão me expresso, me desabafo entre pixels e o nada, choro e salvo minhas lágrimas pitorescas em bitmap, para não perder o pesar.”

sábado, 29 de setembro de 2007

Na prateleira mais baixa do armário do meio descubro versos. Meus. Ou mais ou menos meus. Digamos que já tenham sido meus ou passado por mim. Não sei a quem pertencem agora. Se a eu que já fui, a eu que ainda sou ou a eu que totalmente diferente sou.
Tinha então 16 anos. Descobri que gostava do meu jeito de ser então. E que já vivi a maior parte do que eu queria ter vivido quando daqueles dias. Não me preocupo se isso é compreensível a outros olhos. Ou se eu dissesse olhando para meus olhos de então que tudo ia acontecer, que aqueles amores estavam por vir, que aquele vento correria fresco nos meus cabelos de hoje e que as sementes de árvores que eu nem sabia quais era brotariam em mim e revelariam sua essência. Sim, eu reli minhas sementes hoje, encontrei suas cascas no fundo do armário do meio.
Descobri coisas a meu respeito que já havia esquecido, ou desonestamente tentado deixar de lado. Um quê de solitária, de viajante e exploradora que não sei se tenho mais. Daqueles dias, ainda não conquistei a sonhada liberdade de ir onde e quando. As amarras que me atam, no entanto, estão enlaçadas com outros apegos, desta vez meus próprios apegos. Vejo neste instante que tenho minhas próprias amarras, que elas me doem, mas me mantêm. Onde? Hoje não vou porque não quero; acho que não quero ir. Antes não podia, agora não sei se quero ir neste instante. Acho só que preciso de mais bagagem, talvez proteção. Talvez menos bagagem. É. Não vou agora porque preciso de menos bagagem.

Então revejo versos e desejos antigos. E surge uma antiga necessidade de escrever como se eu tivesse 16 anos e fome de botar pra fora.